O Dilema do REAA

 O Dilema do REAA




Recentemente ministrei uma palestra sobre a história do REAA (quem quiser ver temos a parte 1 e a parte 2 nestes links) e quando mencionei as iniciações teatralizadas do Supremo conselho sul dos EUA o fato causou muita duvida e polêmica.

Aproveitando a deixa, reproduzo aqui um artigo do Irmão Kennyo Ismail autor do Livro Ordem Sobre o Caos que explana magistralmente sobre o REAA. Indico veementemente esta obra! Ao Irmão Kennyo o agradecimento e todo o crédito sobre o artigo abaixo

Reproduzido de Freemason.pt


Breve Introdução Histórica


Havia poucos anos que o Rito de Heredom tinha desembarcado nos EUA, com os seus 22 Altos Graus, e conquistado algumas centenas de maçons. Com a iniciativa dos chamados 11 cavalheiros de Charleston, na Carolina do Sul, este Rito ganhou mais 7 graus filosóficos e 1 grau honorífico. Surge então, em Maio de 1801, o Supremo Conselho “Mãe do Mundo”, administrando um sistema de 30 Altos Graus, denominado “Rito Escocês Antigo e Aceito”. Rapidamente esta iniciativa foi copiada em outros países, dando origem a outros Supremos Conselhos (COIL & BROWN, 1961).

Por mais de 50 anos, o hoje conhecido como Supremo Conselho do Rito Escocês da Jurisdição Sul dos EUA batalhou para consolidar o Rito Escocês nos Estados
sob sua jurisdição, sem alcançar muito sucesso. Em Março de 1853, Albert Mackey conseguiu convencer um já célebre maçom na época, Albert Pike, a viajar do Arkansas até Charleston para receber do 4° ao 32° grau. Pike, então com um pouco mais de 10 anos de Maçonaria, um Maçom do Real Arco e um Cavaleiro Templário no Rito de York, já se destacava no meio maçónico pela sua inteligência e cultura geral, e poderia ajudar o Supremo Conselho a consolidar o Rito Escocês em Arkansas e região (HODAPP, 2005).

A estratégia teve êxito e Pike abraçou o desafio de colaborar para com o desenvolvimento do Rito Escocês, ainda visto por muitos maçons da época como um sistema recente e estrangeiro, em contraste como o Rito de York, tido como antigo e norte-americano. Não demorou para que Pike fosse incumbido de organizar os rituais do Rito Escocês, em 1855, trabalho esse que ele realizou em tempo considerado recorde: um pouco mais de 2 anos, tendo concluído em 1857 (HOYOS, 2009). O seu trabalho foi considerado excelente, porém polémico demais para ser aprovado. Foi a ele solicitado que refizesse o estudo, adoptando uma postura mais moderada. Mesmo não aprovado, este trabalho inicial garantiu a Pike a sua investidura no 33° grau, em 1858, e, no ano seguinte, o mesmo foi eleito Soberano Grande Comendador, em 1859.

A guerra civil norte-americana interrompeu a evolução do seu trabalho de revisão, assim como a mudança do Supremo Conselho para Washington, DC, em 1870. No ano seguinte, em 1871, Albert Pike publica o seu livro “Moral e Dogma”, com as suas lectures, resultantes dos seus estudos sobre cada grau do Rito Escocês (COIL & BROWN, 1961). Mas apenas em 1884 a revisão foi oficialmente concluída e aprovada. A implementação foi imediata e os rituais também foram concedidos a outros Supremos Conselhos, que sofriam do mesmo problema inicial de rituais incoerentes e inconsistentes.

 

O Problema e a Solução

Liturgicamente, os novos rituais foram um sucesso, solucionando a questão da desorganização ritualística. Porém, administrativamente o resultado não foi o esperado. A liderança e renome de Albert Pike, assim como a mudança do Supremo Conselho para a Capital do país, tinha colaborado para o crescimento do Rito Escocês, mas ainda assim apresentando um crescimento tímido, distante da dimensão da maçonaria simbólica.

Consultas foram feitas à base e a resposta veio, literalmente, a galope. Os rituais eram considerados muito complexos e os praticantes acabavam demasiadamente presos na ritualística, em detrimento do conteúdo alegórico e dos seus ensinamentos morais e espirituais. A reação do Supremo Conselho veio sob medida: a transformação dos graus em “peças de teatro”, abrindo mão da ritualística em prol da apresentação dramática dos seus conteúdos alegóricos. Os templos foram substituídos por teatros e auditórios e os oficiais transformaram-se em atores amadores (DUMENIL, 1984).

É evidente que as críticas foram muitas, alegando o abandono dos costumes maçónicos, a profanação do conteúdo, a comercialização vazia dos graus, e o fim da meritocracia pela assiduidade e dedicação. Porém, surgiu uma multidão de Mestres Maçons interessados pelo “entretenimento maçónico”. Se em 1850, um pouco antes do ingresso de Albert Pike, o Supremo Conselho contava apenas com um pouco mais de 1.000 adeptos, e em 1890, após a publicação dos rituais revisados por Albert Pike, este número ultrapassou a marca de 10.000 adeptos, em 1930 esse número já era superior a 500.000 membros (BULLOCK, 1996). As encenações do Rito Escocês eram um verdadeiro sucesso. Mas o preço do sucesso era claro: enquanto a escalada dos 29 graus, do 4° ao 32°, costumava demorar alguns anos para grupos de algumas poucas dezenas de membros, passou a ser realizado em 3 a 4 dias para grupos de várias centenas, algumas vezes superior a 1.000 membros (CLAWSON, 2007).

Além do número de membros e, logicamente, das cifras, o novo modelo do Rito Escocês tinha trazido uma única melhoria: as fantasias. Antes simples e artesanais, a revolução do Rito Escocês nos EUA fez surgir vários catálogos de peças exuberantes e cheias de requinte e riqueza de detalhes. Tanto dinheiro precisava ser empregado de alguma forma, e os “Vales” trataram de investir em benefício dos seus membros, construindo edifícios com salões de festa, bibliotecas, salas de jogos e teatros ainda mais sumptuosos (FOX, 1997). Na primeira metade do século XX, os Vales do Supremo Conselho Jurisdição Sul dos EUA trataram de construir e equipar teatros que se destacaram, e alguns ainda se destacam, entre os melhores daquele país.

Porém, todo este desenvolvimento não mudou o facto, até hoje alvo de críticas, de que os iniciados, de protagonistas que participavam ativamente das provas dos rituais e eram investidos com toques, sinais, palavras e com as jóias dos graus, passaram a ser simples espectadores, passivos perante o processo dramático e podados do processo iniciático. Tal aspecto explicita a razão pela qual o Rito Escocês nos EUA passou a ser chamado por muitos intelectuais maçons de “entretenimento maçónico”, e o seu formato teatral foi inicialmente acusado de ser uma ameaça à moral e filosofia maçónicas (O’DONNEL, 1906; KNOW, 1907).

Por outro lado, não faltaram defensores do modelo de encenação maçónica no Rito Escocês, argumentando que a dramatização, quando bem feita, colabora para uma melhor compreensão e relação emocional com as lições ensinadas (SARGENT, 1907). Cientes disso, os Grandes Inspectores dos Vales criaram estruturas de teatros profissionais, com diretores, auxiliares de palco, técnicos de som e iluminação e dezenas de atores, todos maçons. Eles ensaiam exaustivamente e, em muitos dos Vales, os atores principais recebem cuidados especiais, como se estivessem na Broadway.

Conclusão


O modelo teatral adoptado pelo Supremo Conselho do Rito Escocês da Jurisdição Sul dos EUA tem sido praticado há mais de 100 anos. A sua redução no prazo de concessão dos graus acabou por influenciar as Grandes Lojas norte-americanas, que também passaram a conceder os três graus simbólicos em períodos de poucos dias. Sem entrar na discussão dos seus aspectos morais, facto é que tal formato colaborou para a concentração de quase 2/3 dos maçons do mundo em solo norte-americano.

Apesar deste desenvolvimento excepcional, outros Supremos Conselhos espalhados pelo mundo não optaram por adoptar tal estratégia, provavelmente pelas questões morais e filosóficas em discussão. Para se ter uma melhor compreensão da diferença entre estas duas realidades distintas, enquanto nos EUA um Mestre Maçom alcança o 32° grau em menos de um mês e pagando uma taxa inferior a US$300,00; no Brasil, por exemplo, um Mestre Maçom alcança o 32° grau após mais de quatro anos de dedicação e um investimento superior a R$3.000,00.

Porém, é importante realçar que aqueles que optaram pelo modelo ritualístico tradicional continuam convivendo com o problema original: rituais complexos, algumas vezes incoerentes, e que tiram o foco do conteúdo em nome da forma. Talvez a solução norte-americana não seja ideal como uma solução substituta, mas sim como uma solução complementar. As peças de teatro poderiam reforçar nos maçons os conteúdos alegóricos de cunho moral e espiritual que costumam ficar em segundo plano no modelo convencional. Seria algo logicamente mais trabalhoso, porém, também mais eficiente no que tange a formação do maçom adepto do Rito Escocês Antigo e Aceito.

Kennyo Ismail

Publicado originalmente na Revista Fraternitas in Praxis




Bibliografia

·         BULLOCK, Steven C. Revolutionary Brotherhood: Freemasonry and the Transformation of the American Social Order, 1730-1840. Chapel Hill: University of North Carolina Press, 1996, pp. 239-273.

·         CLAWSON, Mary Ann. Masculinity, Consumption and the Transformation of Scottish Rite Freemasonry in the Turn-of-the-Century United States. Gender & History,19, No.1, 2007, pp. 101-121.

·         COIL, Henry Wilson; BROWN, William Moseley. Coil’s Masonic Encyclopedia. New York: Ed. Macoy, 1961.

·         DUMENIL, Lynn. Freemasonry and American Culture, 1880-1930. Princeton, NJ: Princeton University Press, 1984.

·         FOX, William L. Lodge of the Double-Headed Eagle: Two Centuries of Scottish Rite Freemasonry in Ameri ca’s Southern Jurisdiction. Fayetteville: University of Arkansas Press, 1997, pp. 146-1477.

·         HODAPP, Christopher. Freemasons for Dummies. Hoboken, New Jersey: Wiley Publishing Inc., 2005.

·         HOYOS, Arturo. Scottish Rite Ritual Monitor and Guide 2d ed. Washington, D.C.: Supreme Council, 33°, S.J., 2009.

·         KNOX, William. What Excuse? The New Age Magazine,

·         O’DONNELL, Francis H. E. Philosophy and the Drama in Freemasonry. The New Age Magazine, 1906.

·         SARGENT, Epes W. Detail and the Drama of the The New Age Magazine, 1907, pp. 175-177.









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